Saudações cordiais, camaradas.
Condado de Merseyside, Inglaterra.
O excêntrico e desfigurado homem está nitidamente aborrecido com a situação. Dois homens usando uniforme militar seguem atrás dele escoltando-o até uma pequena sala, onde há apenas uma mesa e duas cadeiras. Os homens pedem que ele aguarde no local e procure manter a calma. Poucos depois, um senhor de meia-idade adentra o recinto e se identifica como Tenente Brassington. Ele traz consigo apenas um gravador. Curvando levemente à frente seu corpo, em sinal de respeito, o prisioneiro saúda seu interlocutor, mas tem o semblante inconformado.
- Meu senhor! Eu pedir desculpas, não querer causar problemas.
- Você sabe por que está aqui?
- Eu não falar sua língua bem. Eu falar dinamarquês.
- De onde você é? De que país veio?
- Groenlândia.
- O.k., tudo bem, tentarei fazer perguntas bem simples e diretas. Responda devagar e nos daremos bem. Você sabe por que foi preso e trazido até aqui?
- Soldados dizer que eu andar na rua com urso polar ameaçar segurança das pessoas.
- Exatamente. Você é maluco?
- Não, meu senhor. Onde estar meu urso? Ele estar bem, em segurança? Nós viver juntos desde que ele ser filhote. Seu nome é Sigurd.
- Ele está bem. Um de nossos veterinários está verificando seu estado geral de saúde e depois o levará para um local adequado.
- Hum, você parecer dizer a verdade.
- Vamos continuar, então, sem mais delongas? Você me dará as respostas que quero?
- Sim, meu senhor.
- Quem é você, qual sua idade e onde nasceu?
Eu ser Hallbjörn Adalbjörgsson, ter 27 anos e nascer na pequena colônia de Nutaarmiut, Groenlândia.
- O que veio fazer na Inglaterra?
- Não foi por querer. Eu passar por maus bocados no mar gelado e desembarcar na costa para descansar de viagem de barco. Ele precisar ser reparado. Eu então aproveitar para vender peles de foca e leão-marinho, comprar mantimentos e conhecer lugar novo.
- E não passou por sua cabeça que andar com um urso enorme e selvagem pelas ruas ia causar problemas?
- Onde eu viver com Sigurd não haver problema. Sigurd bonzinho e nunca atacar ninguém a toa.
- O.k., agora preste bastante atenção: eu fui enviado para cá para ser seu advogado. Portanto, quanto mais coisas me contar sobre você, melhor, entendeu?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Fale-me de sua vida na Groenlândia. Você é casado, solteiro, mora com seus pais? Têm parentes ou amigos que possamos entrar em contato para informar que está aqui na Inglaterra?
- Eu ser solteiro e morar sozinho, com Sigurd. Amigos eu ter, mas eles não se preocupar. Eu navegar muito no Mar do Norte e às vezes passar meses fora de casa.
- E quanto aos seus pais?
- Minha mãe fugir de casa depois de meu pai morrer.
- Como seu pai morreu?
- Caçando baleias.
- Ele era um caçador de baleias, então.
- Não. Ele trabalhar como explorador e guia para pessoas que vinham conhecer os lugares mais perigosos do norte do país. Mas um dia precisar de dinheiro rápido para cuidar da minha mãe, que tava com uma doença estranha. Ele não ser bom caçador, e aquele dia ser da caça.
- Sinto muito por sua perda. Pelo menos sua mãe ficou curada da doença?
- Não saber. Quando a notícia da morte de papai chegar, ela ficar um dia inteiro calada, chorando em silêncio e andando de um lado para o outro. Depois, tudo que restar dela ser um bilhete pra mim pedindo perdão por aumentar ainda mais meu sofrimento com a revelação da verdade: eu não ser filho daquele que sempre me tratar e amar como pai. Eu ter 12 anos quando descobrir isso.
- Então agora perdoe a mim, mas preciso perguntar. Quem é seu verdadeiro pai?
- Eu nunca descobrir. Nem me importar. Para mim, Adalbjörg Helmsteinn foi e sempre será meu pai. Tudo que eu fazer desde que ele morrer é tentar honrar aquele homem seguindo seus exemplos de coragem e perseverança. Poder não ser filho dele, mas eu ter os mesmos talentos para superar os desafios da natureza selvagem do Círculo Polar Ártico.
- Certo. Então, qual a sua profissão?
- Eu passar a fazer o trabalho que meu pai fazer antes de morrer, mas só ficar seis anos nisso. Quando eu ser ainda menino ele costumar me levar em suas explorações para me ensinar tudo o que saber e a respeitar as poderosas forças da natureza. Eu aprender a escalar algumas das mais difíceis montanhas cobertas de gelo e neve do país, a nadar e pescar no mar e em rios de frio congelante, a ser paciente, furtivo e atento quando caçar, a conhecer ervas úteis e plantas nativas. Mas a lição principal ele sempre repetia: “ver e superar o perigo de perto te deixará tão corajoso que nada no mundo será capaz de te amedrontar”. Funcionar muito bem comigo.
- Muito bem. E quanto ao urso? Como conseguiu domá-lo e por que resolveu ficar andando com ele solto por aí?
- O mar gelado me chamar com muita força quando eu ter 19 anos. Eu comprar um velho barco a motor e sair para velejar sem destino. Algumas semanas depois eu desembarcar no Ártico e começar a explorar aquele perigoso e fascinante mundo novo. Eu sentir grande paz, parecer que eu morar lá a vida toda. Semanas solitárias se passar até eu encontrar primeiras pessoas no continente congelado. Alguns nômades, inuits como eu, me oferecer companhia e boas histórias por certo tempo.
- Essa história vai chegar ao urso ou não? Questionou Brassington impaciente. - Oh, perdoe-me, Hallbjörn. Por favor, continue sua história e mantenha o nível de detalhamento.
- Sim, senhor. Certo dia, nesse assentamento nômade, os cães puxadores de trenó começar a latir desesperados, alertando a todos. Foi aí que nós ver um enorme urso polar forçar a entrada do iglu onde dormiam as crianças da tribo. Ele quase já invadir o iglu quando os cães latir. A maior parte dos caçadores não estar no assentamento, haver apenas eu e alguns velhos e inválidos. Nós tentar afugentar o bicho atirando flechas e lanças, mas ele parecer ficar furioso com os ferimentos e vir pra cima de nós. Foi então que eu pegar lança e ir pra cima dele, para atrair a atenção e impedir ele de chegar aos velhos. Eu saber hoje que essa ser atitude estúpida e suicida, mas na hora por algum motivo eu não conseguir pensar no meu bem estar. Eu só saber que precisar interromper o avanço do urso de algum jeito, nem que acabar morrendo tentando.
- Foi muita coragem de sua parte, Hallbjörn. Deixe-me adivinhar: foi nesse confronto que você ganhou esta grande cicatriz que tem no rosto? Parece que você perdeu a orelha e toda a maçã da bochecha da parte direita do rosto. Além disso, esses sulcos parecem ter sido feitas por garras.
- Sim, senhor, isso mesmo. Eu quase morrer, mas conseguir matar a fera. Os nômades cuidar de mim por três dias até eu recuperar a consciência, e depois me saudar como herói e querer que eu viver junto com eles. Uma parte de mim desejar aquilo, mas o chamado da natureza ser mais forte. Poucos dias depois eu continuar minha viagem solitária pelo Ártico. Eles me presentear com uma manta feita com a pele da ursa que matei (sim, descobrir que ser uma fêmea), a lança que eu usar para matá-la, um trenó, uma matilha de cães puxadores e mantimentos.
- A manta é esta que você está vestindo agora?
- Sim, senhor.
- Uau, a ursa devia ter uns dois metros e meio de comprimento!? Impressionante!
- Dois dias depois, adentrando no continente, uma estranha intuição me guiar até uma geleira baixa. Lá, quase invisíveis, eu encontrar dois pequenos filhotes de urso polar. Um estar morto, o outro quase não ter mais forças. Eu ter bom conhecimento sobre ursos e estar certo que eles dever ter pouco mais de um mês de vida, certamente ainda mamar. Quando eu me aproximar do quase morto filhote, ele reagir como se me conhecer, pois farejar o ar e arfar com dificuldade como se feliz. Eu entender então que o filhote reconhecer o cheiro da mãe nesta manta que eu usar. Eu ficar muito triste e culpado em ver sua sina e resolver salvar sua vida, ou pelo menos tentar. Felizmente Sigurd ser muito determinado. Ele desejar viver, eu ter certeza, e por isso conseguir crescer forte e saudável como se mostrar hoje, apesar de todas as dificuldades. Para mim, ele ser como filho.
- Muito bem, filho. Noto que estas recordações lhe são um tanto dolorosas. Acho que podemos encerrar por hoje. Sua vida é bem incomum, parece até que você é atraído para o perigo. É quase como se a natureza gostasse de propor desafios para você superar. Certamente não deve ser uma vida fácil.
- Eu gostar da vida que ter.
- Muito bem. Providenciarei um local onde você e Sigurd possam ficar juntos. Infelizmente vocês ainda precisarão permanecer sob custódia, afinal mesmo que sem intenção você cometeu um crime. Peço que compreenda.
- Eu não querer criar confusão. O senhor prometer fazer o melhor possível para me tirar daqui? Se precisar eu prometer à Rainha nunca mais voltar aqui na Inglaterra!
- Ora, ora, tenha calma, meu amigo! Estou certo que não haverá punição tão severa assim. Para ser sincero, eu não estranharia nem um pouco se alguém do alto escalão do governo resolvesse conversar mais a sério com você depois que eu lhes contar sua história ao defendê-lo...
En Taro Adun!